Fatores psicossociais do trabalho são um conjunto de condições organizacionais que impactam o bem-estar emocional, social e físico das pessoas.
O trabalho sempre ocupou um lugar central na vida das pessoas. É por meio dele que construímos identidade, pertencimento, vínculos sociais e dignidade. Mas o mesmo trabalho que pode sustentar saúde, também pode ser causa de sofrimento profundo.
Cada vez mais, lideranças e empresas são convocadas a olhar para os impactos emocionais do ambiente organizacional e refletir sobre a pergunta que muitos evitam: estamos promovendo saúde ou adoecimento no cotidiano profissional?
Os dados são claros e alarmantes. Segundo o Ministério da Saúde, entre 2007 e 2022, o Sistema Único de Saúde registrou quase 3 milhões de atendimentos por doenças ocupacionais. Entre 2012 e 2024, o Brasil notificou 8,8 milhões de acidentes de trabalho e 32 mil mortes formais.
Ainda mais significativo é o aumento de 134% nos afastamentos por motivos de saúde mental, evidenciando que os riscos, além de físicos ou operacionais, são muitas vezes invisíveis, emocionais e relacionais.
Esses riscos estão diretamente associados aos chamados fatores psicossociais do trabalho, um conjunto de condições organizacionais que impactam o bem-estar emocional, social e físico das pessoas.
Fatores como sobrecarga, exigências excessivas, pressão constante por resultados, conflitos interpessoais, ausência de reconhecimento e instabilidade são exemplos comuns, embora nem sempre nomeados.
Eles atravessam a rotina das equipes, se manifestam em sintomas silenciosos, e, quando ignorados, comprometem não apenas a saúde dos indivíduos, mas a cultura organizacional como um todo.
Lideranças costumam se surpreender com a desmotivação de suas equipes, com a alta rotatividade ou com o crescente número de licenças médicas, sem perceber que o problema pode não estar nos profissionais, mas nas condições em que trabalham.
A produtividade isolada da escuta, a excelência descolada da ética, o desempenho exigido sem suporte emocional — tudo isso compõe um cenário de desgaste, onde o trabalho deixa de ser fonte de sentido e passa a ser um fator de risco.
Esse debate não é um modismo. Cuidar da saúde mental no trabalho exige responsabilidade institucional, políticas consistentes e lideranças preparadas para lidar com a dimensão subjetiva das relações de trabalho.
Isso significa saber reconhecer sofrimento, acolher conflitos, prevenir assédio, criar espaços de escuta e adotar práticas que promovam segurança psicológica.
Trata-se de uma proposta que articula produtividade com respeito, exigência com proteção, resultados com humanidade. Ambientes de trabalho dignos são aqueles que equilibram metas e cuidados, que valorizam a entrega sem negligenciar quem entrega.
O desafio está posto. É hora de reconhecer que saúde mental e trabalho não pertencem a esferas separadas. São dimensões que se entrelaçam e que devem ser conduzidas com maturidade e responsabilidade.
A liderança do futuro será medida não apenas por metas alcançadas, mas pela capacidade de promover relações de confiança, reconhecimento e cuidado no ambiente profissional.
Em um mundo em constante transformação, onde o desgaste emocional se torna uma das principais causas de afastamento e perda de talentos, talvez a pergunta mais estratégica que um líder possa fazer seja: como minha forma de liderar impacta a saúde das pessoas com quem trabalho?
A resposta a essa pergunta pode transformar não apenas equipes, mas também a cultura, os resultados e as lideranças.
“O trabalho deixa de ser fonte de sentido e passa a ser um fator de risco.”


